Treino de força: como, quando e por quê?

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Precisamos ter claros alguns pontos quando somos corredores ou triatletas e a ideia é incluir treinamento de força.

 Ao longo desses anos todos como atleta e treinador, vi surgirem diversas propostas voltadas para o ganho de força – a mais recente vem do cross fit. Minha intenção aqui não é criticar ou condenar esses trabalhos, nem poderia (tudo é uma questão de planejamento e equilíbrio, como se verá a seguir). O que quero é compartilhar um pouco da minha experiência e do que venho aprendendo também com outros treinadores – através de eventos ou literatura.
O primeiro aspecto que requer clareza é o objetivo do treinamento de força – o que, por sua vez, nos remete ao entendimento da individualidade de cada atleta. Ele vem de uma lesão e está num período de reabilitação? Foram identificados nele pontos fracos, estruturalmente, que precisam de reforço muscular? Ou ele quer incluir o treinamento de força para que essa valência seja transferida – de modo efetivo – para a modalidade (corrida, ciclismo, natação ou triathlon)?

Ganho real de força aplicada na modalidade é, de fato, o ponto mais polêmico e, portanto, precisa de análise e reflexão honesta, capacitada, entre treinador e atleta/aluno, para decidir se vale a pena incluir o treinamento de força na preparação.

 Há estudos que relatam melhora de desempenho em modalidade, mas há outros que (contrariamente) atestam não ter havido qualquer mudança para melhor ou, se houve, foram ganhos mínimos, pouco significativos, muito sutis.
Considerando essa divergência ou imprecisão nos resultados, vale a pena se questionar se o tempo gasto num ginásio, num studio funcional, num box de cross fit ou numa academia de musculação não seria melhor aproveitado treinando na própria modalidade ou mesmo descansando o corpo – principalmente quando se trata do atleta amador, que se desdobra para cumprir a planilha em função de suas inúmeras outras atividades.

De novo, ressalto: não estou falando aqui em treinamento de força como reforço muscular, como preventivo de lesão. Este é indiscutivelmente necessário. Não há dúvidas de que um corpo mais bem organizado, sem assimetrias, com articulações e grupos musculares sadios, vai render mais. Principalmente se esse trabalho está interligado: treinador + fisioterapeuta. Estou refletindo sobre aplicar treino de força visando a performance, uma melhora de rendimento na modalidade em si.

Feitas essas observações, então, afinal, o que se sabe sobre treinamento de força para ganho real em corrida e triathlon?
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Sabemos, por exemplo, que:

– o treinamento de força precisa estar bem longe do evento principal para o qual o atleta está se preparando. Não faz o menor sentido puxar ferro quando se deveria estar fazendo força na pista ou na piscina, ou seja, na própria modalidade.

– o Joe Friel, respeitadíssimo treinador de endurance, sugere colocar os treinamentos de força, se realmente for assim decidido, no período de base. E aconselha que, nas últimas 12 semanas antes do evento principal, não se usem cargas altas, procurando trabalhar força dentro da modalidade em si.

– bem longe do evento principal, o treinamento de força deve dar ênfase a cargas altas e poucas repetições. Mas atenção: estamos considerando que o atleta já tenha passado do período de adaptação com cargas. Existe um processo que precisa se respeitado quando colocamos nosso corpo a lidar com pesos etc. Mais uma vez, portanto, surge o fator tempo. E tempo, para triatleta, sabemos, é algo difícil de arrumar.

– não adianta treinar força se a estabilidade e a mobilidade das articulações deixam a desejar. O atleta precisa ser avaliado nesses dois pontos de modo prioritário. Então, projeta aí: tempo para corrigir instabilidades e ganhar mobilidade + tempo para adaptação a cargas e só depois mergulhar num treino específico de força.

– e, uma vez estando pronto para fazer um treinamento de força, não adiantarão nessas sessões os estímulos que nada têm nada a ver com a mecânica da modalidade com a qual se está envolvido. São necessários exercícios que estejam relacionados aos gestos executados na modalidade.

Resumindo: a inclusão de treino de força é uma estratégia complexa e que exige, em muitos casos, paciência. Se a ideia é frequentar academia, fazer musculação, cross fit ou seja lá o que for, isso precisa ser muito conversado com o treinador da modalidade, de modo que se chegue a um planejamento realista, integrado, e que não atrapalhe mais do que ajude.

Para esportes de endurance, como o triathlon, nesses anos todos, nunca vi alguém com alta performance em musculação, ou treinando força por horas em ginásio, apresentar alto rendimento correndo, pedalando ou nadando. Na maior parte das vezes, o que vi foi perda de desempenho. Quando esse triatleta ou corredor volta para a modalidade, não consegue aplicar aquela força, está fadigado, com a musculatura toda machucada e mais pesado, em função do ganho de massa muscular.

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