Aqui está a melhor dica que eu poderia te dar

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Você tem vontade de treinar e tempo para se dedicar ao triathlon, você tem uma baita bicicleta, ótimos pares de tênis, todos os equipamentos e mais um pouco, você tem uma equipe, você tem um treinador. Mas você tem convicção?

Como triatleta e treinador, é gratificante ver o quanto o esporte cresceu, atraindo dia após dia mais e mais praticantes.
Porém, às vezes algumas precipitações acontecem: por conta do glamour de algumas provas, como um Ironman, está se tornando meio comum o cara chegar a uma assessoria já objetivando uma prova longa. Acho que nem preciso me estender muito nos motivos para você concordar que é um tanto desaconselhável (para dizer o mínimo) sair do sedentarismo direto para uma prova exigente como essa, assim, sem escala, certo?

Voltei há pouco do Havaí, onde acompanhei atletas meus competindo na mais sonhada (e glamurosa) prova de Iron do mundo. Pude ver de perto o mais alto nível do triathlon, afinal, é árdua a classificação para estar lá. E o que confirmei? Que mais de 80% deles, pode ter certeza, adotaram não um esporte, mas um estilo de vida, porque o triathlon na vida deles existe há pelo menos cinco anos, ou seja, um projeto de longo prazo. Claro que há exceções: pode acontecer de alguém começar no triathlon aos 30 anos e, por causa de um background significativo em esportes em geral, de genética ou qualquer pré-disposição como essa, ter condições de encarar Kona num prazo menor do que cinco anos.

Mas o que estou focando aqui é a maioria. E o perfil dela indica atletas que precisaram de tempo para trabalhar e estar lá. Muito treino em cima de um objetivo – o que equivale dizer uma mesma rotina, meses e meses, sem invenção de moda. Ou seja, do que é formado o triatleta de alto nível que chega ao Havaí apto a viver aquilo tudo? De convicção.

“Frank, onde você quer chegar com esse papo?”, você pode estar se perguntando.
Explico.

Como treinador, percebo que a nova geração de praticantes de triathlon chega para treinar muito bem informada. Na minha geração, a gente tinha fome de treino. Chegava para o treinador e queria o treino, seja qual fosse: “o que tem para mim hoje?”. A estratégia maior estava na cabeça do treinador e nós executávamos o dia a dia.
A nova geração começa a treinar, pesquisar, ler sobre o tema e, diferentemente da geração passada, chega bastante questionadora. É muito fácil o acesso às informações – e elas correm em grande velocidade na área de treinamento (tão rápido que mal dá para compreender de fato a anterior que já vem mais novidade). Então, o atleta hoje em dia recebe a planilha e questiona, duvida, quer acrescentar algo que leu/ouviu/assistiu.

Claro que isso é bom. Motiva o treinador, faz a gente se puxar para explicar por que está fazendo assim ou não. Torna mais especializado o relacionamento com o atleta, nos envolvemos mais. Mas percebo também que esse cenário over de informação (nem sempre bem respaldada, muitas vezes superficialmente difundida e principalmente alimentada apenas pela ideia de que a grama do vizinho é melhor) atrapalha mais do que ajuda.

Sim, é ótimo ter muita informação circulando, é ótimo acompanhar cada postagem daquele triatleta-ídolo, mas quem filtra tudo isso? Ter inspiração é saudável e aconselhável, mas muita calma na hora de aplicar o modelo de outro. É muito fácil se deixar atrair pelo que os outros estão fazendo, por cada novidade na área de treinamento, sem levar em conta o contexto, o histórico, o repertório de cada um na modalidade. Há etapas importantes que precisam ser respeitadas, principalmente quando falamos de triathlon de longa distância.

Questionar o tempo todo é duvidar do que está sendo trabalho… isso estressa, drena a energia, faz perder consistência no que se está fazendo. A cabeça tem de ajudar o corpo. Treinar longa distância sem convicção no que foi planejado? Impossível.

Como treinador, a gente se adapta, claro. Tento harmonizar o que sei e acredito com a vontade/o sonho daquele que chega para mim querendo esse ou aquele objetivo. Mas não me furto de deixar claro aquilo no que acredito: o ideal é um período de formação e adaptação a provas curtas, depois vêm as intermediárias, depois volta para as curtas, mescla com intermediárias, melhorando repertório, afinando potenciais e, finalmente, as provas longas. Estou falando de triathlon por cinco, seis anos… Quando chegamos às provas longas, o fim está próximo, amigo. O que se considera vida longa no triathlon? Dez anos.

Então, muitas vezes, o treinador não está ultrapassado, não é “old school”, não é que ele não conheça “o mais novo treinamento”. Ele apenas olha para o atleta e, por sua experiência, faz uma leitura dos próximos três, quatro anos daquele praticante, com base em suas características, potenciais, histórico… para estabelecer etapas, em que a evolução poderá ser gradual, segura.

Para a grande maioria dessa geração mais atual, o triathlon tem uma vida curta, porque tanta pressa, dúvidas e invenções (a partir de comparações com outras formas de treinar totalmente descontextualizadas) desgastam o praticante mental e fisicamente. Isso sem falar nas lesões. Ou seja, vai parar logo ali na frente. Um treinador quer atletas com vida longa no esporte.

Onde eu quero chegar?, você se perguntou.
Nisto: confie no seu treinador, tenha convicção.

Afinal (agora eu devolvo a pergunta para você), até onde você quer chegar no triathlon? E com que qualidade?

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